segunda-feira, fevereiro 25

Dioptrias

Vazava a bexiga no urinol quando se abeirou de mim um amigo em angústia. Enquanto também se aliviava, solicitou-me que olhasse para ele, ao que acedi com algum melindre. Seguiu-se uma desconfortável surdina. Eu a fita-lo com embaraço e ele em semblante de expectativa, ao mesmo tempo que disparavamos sobre a cerâmica alva de Valadares. Um par de segundos volvidos, perguntou-me se lhe vislumbrava algo diferente na aparência. Procurei com desvelo uma verruga, uma borbulha viscosa ou um pêlo encravado... mas nada. Insistiu ele para que indagasse melhor. Olhei de novo e uma outra vez... e nada. "Estás na mesma", respondi acertadamente. Exalou um consolado bafo fedorento, sacudiu o pirilau, recolheu-o nas intimidades, desembaraçou as cuecas do rêgo do rabo, aliviou a expectoração amarelada que lhe balouçava na garganta e esclareceu: "Anda uma gaja embeiçadinha por mim a dizer-me que tenho um ar sensível"

2 comentários:

Florença disse...

Para a outra vez, diz-lhe para pintar a ponta de rosa. Dá um ar romântico :)

Tiago Franco disse...

Conversas no urinol têm o seu quÊ de "sensível" :)