terça-feira, março 13

Pobres dos ditos

Um dos mitos urbanos que saltitavam, em surdina, entre as secretárias da minha escola primária era que a senhora que fornicava em cima do capot de um carro (vide O Lugar do Morto) tinha participado, anos antes, num filme ainda mais badalhoco. Era esta a terminologia a que recorriamos, timidamente, para abordar as peliculas de cariz pornográfico. Dizia-se na altura que não era apenas Ana Zanatti que carregava nos ombros a poeira de um passado sombrio. Outros dois grandes nomes lusos do espectáculo, os senhores do Tal Canal e do Eu Show Nico, também tinham passado por aquele festim de pouca vergona. Ora, recordemos o argumento. Numa aldeia recôndida do interior, uma tenra jovem é surpreendida pelo pároco a trocar carinhos com o namorado. Para higienizar os instintos impuros, é encerrada num claustro, onde passa a conviver com uma comunidade de freiraria ressabiada, liderada por uma sádica madre com afinidades ao demo. A menina camponesa é então submetida às mais terríveis sevícias daquela agremiação de tarados. No retiro do seu colchão de tábuas, a jovem expia num conjunto de cartas endereçadas a Deus Nosso Senhor. Eis o motivo de a película se chamar Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa. Anos mais tarde, um conjunto de argumentistas sul-americanos inspiraram-se na trama para desenvolverem uma história em versão soft. Retiraram a estética hardcore mas respeitaram escrupulosamente o conteúdo sádico, oferecendo-nos 4.376 episódios de uma menina provinciana que dialogava com o além. Ironicamente, o enredo regressou, 30 anos depois, à casa de partida para a SIC espremer, até ao último cêntimo dos dividendos, o fenómeno Floribella

1 comentário:

Florença disse...

No episódio em que a Floribella for para cima do capot de um carro para sucumbir aos prazeres da carne, eu sento-me a ver a SIC nesse intervalo de tempo :D