segunda-feira, novembro 26

Bela da besta

Se entre 1960's e princípios de 70's a programação televisiva era preenchida com reportagens na Feira Popular, festivais da canção e discursos propagandistas, a década de 80 instrumentalizou o pequeno ecran para nos formar a personalidade e integrar numa comunidade a caminho da europeização. No Barco do Amor, transmitiam-nos conceitos de afecto e traçavam-nos o sinuoso trajecto entre os complexos preliminares e a boda. Já nos Três Dukes, as noções de irmandade e laços de sangue ficavam ligeiramente ofuscadas quando a nossa puberdade nos conduzia teimosamente a atenção aos mais justos calções de ganga da vila de Hazzard. Discretamente, estava ali, no rabo da Daisy Duke, o encorajamento para o enlace e a consequente procriação. Para apurar o espírito de grupo e a argúcia empreendedora, ofereciam-nos o Esquadrão A, agrupamento de mercenários justiceiros que expulsavam o mal a troco de uns dólares. Com o Macgyver pouco apreendemos de novo, já que sempre fomos um país de desenrascados. Em contrapartida, assimilámos juízos rectílinios com as curvas a 90 graus do bólide do Automan, ou os conceitos de perseverança com o indestrutível Raio Azul, o helicóptero do incorruptível comandante Farentino. Mas a doutrina televisiva não se esgotava nos juízos de acasalamento ou na destrinça entre o bem e o mal. A Balada de Hill Street era a melhor alegoria à confraternização do belo com o feio. De dia, o capitão Furillo, o feio, engavetava larápios para depois a Dra. Joyce, a bela, os desenclausurar, sob a cobertura jurídica da sexta emenda. De noite, partilhavam um cigarro sob o cobertor, depois da sexta

1 comentário:

Florença disse...

Dava tão tarde... Adormecia sempre, quando conseguía lá chegar :/