- Señor Keith... señor Keith...- Yeah my boy...
- Have you a spare Captain America shirt?
- Want one?
- Yeeaahhhh...
- Take it my boy
- Gracias señor... gracias
Estarei a ficar senil ou apenas possuido pelo espirito Marvel?
Irrita-me profundamente gostar de me irritar com estes três. Quando algum bota discurso, lá estou eu de tímpanos sintonizados à verborreia. Dá-me logo vontadinha de fazer tudo ao contrário. Quer dizer... tudo, tudo, também não. Por exemplo: se o Paulo se insurge vigorosamente contra o casamento entre homossexuais, não vou logo abraçar-me a outro homem. Mas pondero seriamente em vestir uma t'shirt com um arco-irís. Se o Rui deixa entender que com ele o Sporting era campeão intercontinental, vou embicadinho para a rua dar vivas ao gigantone do Soares Franco. Entre duas pessoas que não pescam nada de futebol, sempre é preferível um colunável a um carapinhudo com três quilos de gel na cabeça. Quanto ao Carrilho... bem, com o Carrilho é mais complicado. Se fala bem da Bárbara... eu também falo, mas só se a apresentadora se vestir de freira despojada de roupa interior
Diz o calendário que hoje, finados de Julho, se celebra o Dia Internacional do Orgasmo. Fui apanhado de surpresa. Desconhecia a efeméride, mas aplaudo, desde já, a iniciativa. O orgasmo também merece ser comemorado. Acho que celebrar o orgasmo é muito melhor que conhecer, por exemplo, a sua definição técnica. Ora, atentemos os ensinamentos do compadrio de letrados que escrevinhou o dicionário da lingua portuguesa. Esclarece a obra que o orgasmo é o fenómeno fisiológico que se manifesta por uma turgescência de certos orgãos. Não se detendo, o mesmo grupo de letrados reforça, para quem ainda não tenha ficado elucidado, que é o ponto mais alto da excitação genésica. Enfim, o paroxismo do prazer sexual.
Há uns tempos, entrei num estabelecimento comercial para adquirir uma maravilhosa estatueta para prenda de aniversário. A figura de Freud com duas mulheres nuas escarrapachadas na testa... Psst, você aí, importa-se de tomar atenção? Como eu ia dizendo, a transacção foi o melhor pretexto para a senhora do balcão descarregar frustrações, debitar teorias feministas e denegrir a espécie masculina. E não sei quê... os homens são todos iguais... só pensam nessas coisas... é só mulheres naquelas cabecinhas... pata-ti, pata-ta... Hei!! Sim, você... está a acompanhar o meu raciocínio?? Enfim, o meu gesto altruísta acabou por merecer o mais veemente repúdio de uma ressabiada. Ai o caraças... mas para onde é que está a olhar?? Adiante. Embrulhou a caixinha contrariada e não parava de lançar considerações menos abonatórias. Mau-maria... Estou aqui a falar para o boneco ou quê?? Já estava doidinho para me ir embora e... Mas afinal quem foi o engraçadinho que se pôs aqui a fantasiar com a Helena???
Ando a reaprender a dedilhar sobre o teclado. Agora tem de ser assim de ladecos. Tenho este mono atrás de mim. Uma iniciativa maternal, que veio acumular-se ao elefantinho com rodas, ao triciclo com pisca-pisca, ao caixote das bolas coloridas e à bola ortopédica, um esférico vermelho de tamanho considerável. A minha sala é um exíguo espaço lúdico onde reina animação de um maralhal de brinquedos. A custo, vê-se televisão e com boa vontade consegue-se usufruir do computador. Mas olhem que vale a pena. Uma senhora trintona aos abracinhos e beijinhos na tenda, a brincar às casinhas. Sempre se ganha uma assoalhada
Uma manhã igual às outras. Correrias para acertar com os horários. A miuda ainda com a birra do sono. Corre atrás de mim com o frasco do perfume. Pede-me deseducadamente para a pulverizar. Chapeu, casaco, mochila. Tudo em ordem e ala que se faz tarde. Acabadinhos de fechar a porta, o primeiro contra-gosto. Não quer descer as escadas. Já no colo, não desarma. Agora pede as chaves. Irra. Pega lá nas chaves do carro e tá caladinha. A lufa-lufa continua no passo apressado até ao carro. A Maria ficou para trás. Foi levar o lixo ao contentor. Vai de sentar a criança na cadeirinha e fechar a porta. Dois terços de segundo depois: TCHANK! Empaledeci como uma fornada de mortos. O carro trancado. A criança lá dentro. Provavelmente preparada para me rebentar os estofos. Bonito. Vou ter de estilhaçar o vidro. Com este aspecto mal dormido, ainda me confundem com um meliante e encaminham para a choldra. Quando me preparo para enrolar o casaco no cotovelo, um som semelhante ao de três segundos atrás: TCHANK! Tenho uma filha que abre as portas a uma miscelânea de sadismo e inteligência
O que terão em comum Madalena Esteves, Cláudia Fernandes e Ângela Santos? Andam todas na casa dos 30. Casadas. Filhos. Uns quilos a mais. Empregos entediantes e uma casa nos arrabaldes de Lisboa. São possivelmente felizes dentro dos curtos parâmetros das expectativas. Há duas décadas atrás, o trio trauteava, em voz de falsete, o primeiro grande sucesso de Madonna. Pelos canais de Veneza, a rapariga, agora rija cinquentenária, gabava-se da imaculada pureza da sua virgindade. Madalena, Cláudia e Ângela limitavam-se a uns melos nas traseiras do liceu e guardavam-se para o santo matrimónio. Não perdiam o Music Box e o vídeo da pop-star, que lhes inspirava as luvas de renda e os trajes das sainhas de folhos. Hoje, alimentam o share da TVI e a aposta na ficção nacional
O cabelo levado pelo vento
Temo que a bola de neve tenha começado a rolar e já ninguem a possa deter. A minha filha iniciou o intrincado processo de formação da personalidade. Quer dizer, só agora começamos a ter os primeiros sinais da sua edificação como pessoa. E a coisa está preta. Não antecipo coisa boa. Tão pequenina e já sectária e preconceituosa. A mais recente vítima desta complexa ebulição do ego foi um boneco de pelucia de fino trato. De tez rosa, o pequeno felino optou por um lacinho amarelo para lhe adornar o pescoço. Vê-se que se trata bem. Tem pelagem sedosa, as unhas tratadas e a pele hidratada. Não vejo mal nenhum que se cuide. Mas a criança lá tem as suas ideias e não há quem a demova. Como se chama o gatinho Cice, como? Rabo, gato rabo. Ela lá sabe
Tenho de acabar com isto. Ainda vou saber onde os viciados nas slot-machines arranjam aqueles cartões que lhes barram a entrada nos casinos. As autoridades deviam ponderar seriamente na categoria dos agarradinhos da Fnac. Vedavam-me as portas do estabelecimento e já não estourava os euros em coisas parvas. As prateleiras estão todas arrumadinhas e cheinhas de rebuçados de lazer. São centenas de jogos para as mais variadas consolas. Milhares de filmes com preços a todos os gostos. Ecrans plasma a 60.000 euros. Livros ao desbarato. Agora até vendem bonecada. Tenho repúdio de mim próprio. Tenho asco das minhas fraquezas. Tenho vergonha de ter parado na secção dos toys and statues e comprado isto. O Buddy Christ. Ou, em bom português, o Cristo Amigo. Jesus em postura informal e com um cisco no olho. Mexe a cabecinha, como aqueles cães que esticam o pernil nos tabliers traseiros das viaturas de domingo. Ai Jesus, que nunca mais me ajuizo
Todas as guerras são feias e todos os conflitos têm um rosto. Ora, juntando as duas associações, muitos desaguarão nas fronhas da Condoleezza Rice para ilustrar a crise no Médio Oriente. A chefe da diplomacia norte-americana cumpre as duas premissas: tem um rosto e não é das senhoras mais bonitas. Mas a secretária de George W. Bush só carrega a balística dos States para Israel. Quem lança as bombas ao Hezzbolah tem nome de fecho-eclair e uma carinha laroca. Diz-se nos corredores da diplomacia internacional que é Tzipi Livni, hebreia ministra dos negócios estrangeiros, quem manda verdadeiramente no Estado de Israel. Nos mesmos corredores, depois de refeições bem regadas, os mais desbocados denunciam que é Livni a responsável pelo debilitado estado de saúde de Ariel Sharon. O antigo primeiro ministro trocou a cama do quarto pela marquesa do hospital porque não teve pedalada para a antiga agente da Mossad. E nós lá temos que levar com ministras do gabarito estético da Maria de Lurdes Rodrigues
Vou de férias, iupii. Carradas de malas, iupii. Torrar ao sol, iupii. Os engarrafamentos, iupii. Cocós na areia, iupii. Os castelinhos, iupii. A tara pela água, iupii. As birras, iupii. As fraldinhas, iupii. As feijoadas domingueiras do vizinho, iupii. A cama dura, iupii. A almofada mirrada, iupii. A consola em casa, iupii. A praia de manhãzinha, iuppi. A praia ao finalzinho da tarde, iupii. Madrugar para o pãozinho fresquinho, iupii. Uffas, já cansa antes de descansar
Fomos apresentados por um taxista escocês. Depois de atravessarmos o Lago Ness, ao final do dia, desafiou-me a provar the finest scottish malt. Fiquei adepto. Eu, que tolerava a custo whisky. Passei a contar os dias para o regresso a casa e partilhar a nova com os amigos. Conseguia finalmente degostar aguardente de cevada. Neste caso, sem gelo, como aconselhou o escocês de narigão avermelhado. Já em casa, descobri no Chiado uma loja que importava o néctar da Destilaria Macallan. Levei a garrafa para casa do refugiado belga e armamo-nos em finos. Ou melhor, começámos finos e acabámos taberneiros, em concursos de penalties. Entre Rolling Stones e Mariah Carey, aviámos a garrafa até ao fundo da vergonha. Fui carregado em ombros de regresso a casa por um abstémio. O refugiado ficou às portas do WC agarrado à sanita. Estávamos pelas 23:00 e a noitada de copos tinha-se pirado com a lucidez
Foi naquela fase da transição da infância para adolescência. A produção hormonal deixa o corpo a debitar testosterona, mas fragiliza o coração. Começamos a ficar sentimentalões e apaixonamo-nos por tudo o que mexe. O single do Leo Sayer acompanhou-me nessa delicada metamorfose. Ouvia pela Sofia, a coxuda fantasiada de patinadora na festa de carnaval. Ouvia pela Marta, que tinha o dobro do meu tamanho. Cheguei a ouvir pela Cristina, a filha de um mecânico da TAP, que aparecia bronzeadíssima depois das férias de Natal. Não vão acreditar, mas também ouvi pela Clélia, com aspecto de refugiada vietnamita. Na semana em que não estava apaixonado, também ouvia, por todas as que foram e as que ainda haviam de vir. Etapa conturbada essa, em que a agulha se desgastava no single de vinyl de minha mãe. When i need you... you, you and you too
Muitos vocês se recordarão do boom Samantha Fox. Aquela segunda metade da década de 80 ofereceu muita musicalidade kitsch. Ainda hoje me penetencio por ter curtido tanta aberração. Nesses tempos férteis em mau gosto, a Samantha Fox juntava canções obscenas a um decote ordinário, que desencobria um par - dizia-se na altura - sem rival. Quem lançou a atoarda arrependeu-se logo a seguir. Os italianos desmistificaram a criação britânica da página 3 com a Sabrina capa-de-revista. Também cantava mal, mas transpirava muito mais charme que a roliça branquela. E se queriam guerra, a artista transalpina não se furtava a um criterioso estudo comparativo. Mandava uns airbags que reduziam os melões da raposa a insignificantes esferas de rolamentos
Há imagens que se cravam na memória e não há maneira de desgrudarem. Quem nunca desbastou o nariz, que levante o dedo. Sim, o mesmo que varreu as impurezas da cavidade. Não sei, e acho que nem quero saber, por que razão se depositam nas fossas nasais aqueles pedacinhos repugnantes. Mas a verdade é que temos burriés e não há vivalma que tenha resistido a uma bolinha de muco. Ora a gente trata do recado dos nossos, o problema é os dos outros. Um certo dia, já há uns anos, almoçava com um amigo. Esse amigo parecia que tinha urticária crónica e insistia em esventrar o nariz com o indicador e o mindinho. Concluído o respasto e já no finalzinho do café, o belo do cigarro para assentar os morfes. Entre Benficas, Sportingues, nádegas da empregada e o comi-que-nem-um-alarve, vai de esborratar a beata no cinzeiro. A minha sucumbiu nos despojos, a dele levitou das cinzas e regressou coladinha ao dedo
Se há termo que me arrebita, esse termo é indiscutivelmente brainstorming. Tem uma fonética sinuosa, que seduz de pronto o ouvido. Ainda por cima, consegue encaixar dois termos que acasalam muito a custo (imaginem uma enxurrada de massa encefálica). Depois, tem esse grande mérito de identificar um ritual peculiar. Atafulha-se numa sala uma série de iluminados com crise de brancas e espera-se que a salganhada de alegações e contra-alegações resulte numa ideia peregrina. Dizem que o Viagra nasceu de uma orgia intelectual do género. Cinco funcionárias da limpeza fecharam-se acidentalmente num escritório da empresa que as avençava. Sexta-feira à noite, sem ninguem que as acudisse, passaram o fim-de-semana em prelecções do infeliz quotidiano. Afeiçoaram-se à vassoura e fantasiaram sobre um milagre que oferecesse um colorido azul celeste à insatisfação doméstica. Sem o brainstorming não brotavam estas coisas acidentalmente bonitas
Volto à rubrica do antes e depois para accionar o alarme aos malefícios do alcool. Muitos se recordarão da menina que se deliciava com um Martini algures na riviera francesa. Partilhava a mesa com um octagenário quando começou a ser galada por um rapaz com fungos nos lábios. A química brotou naquele preciso momento. Incendiada pelos calores, a menina larga o abastado velhote e encaminha-se precipitadamente para o jovem da boca inflamada. Não reparou, porém, que um cordelinho da saia ficara entalado na cadeira e que o traje descosia ao ritmo das passadas, denunciando um rabiosque catita. Anos volvidos, e litradas de martinis emborcados, é naquele estado que se apresenta. Não bastasse o fígado em frangalhos, a micose do mais que tudo alastrou-se pela derme da miúda e transformou a musa num bolo sarnento. Fica o alerta aos adolescentes dos shots em copinhos de plástico
A edição portuguesa da Gentleman's Quarterly (GQ) recuperou o revolucionário conceito televisivo da Vera Roquette e lançou o desafio aos leitores. Adaptou o repto às mais modernas técnicas de marketing e deixou o critério nas mãos do público. Imprimem-se duas capas e lança-se o desafio: Agora Escolha. Na década de 80, a gente ligava o número da RTP e votava num dos dois programas em contenda. Hoje, temos estas modernices. Ainda por cima, trata-se de uma peleja de gigantes. O Special One, aqui em intimidante postura de guerreiro Maori, ou a Musa Galega, preparadinha para se agaixar na retrete. Como o nome da publicação trimestral indica, serão os cavalheiros a escolher. Agora, só uma dúvida me atormenta. Será que os engraçadinhos dos editores andam a esticar a corda? Será que questionam a masculinidade do público alvo? Mas será que alguém ainda tem dúvidas?
Fiz juras de amizade eterna. Dancei a valsa. Ponderei seriamente (se é que naquele estado se podem tomar decisões reflectidas) numa banhoca no Tejo. Perdi a cabeça, a dignidade e o respeito dos mais próximos. Tudo por causa desta droga. Uma mistela cubana de rum, lima e hortelã. Raramente, mas muito raramente, apanhei pielas daquela amplitude dramática. A esta distância, e pelas consequências nefastas ao intelecto, já não me recorda o número de copos que ingeri alarvemente, mas parece-me que andei perto da dezena. Como consta no dialecto da malta das capelinhas, apanhei uma potentíssima cardina. Mais velho e ajuizado, não me meto agora nessas corridas, mas ainda hoje não posso cheirar hortelã. Aliás, não consigo conceber como há rapazolas capazes de improvisar um swing ao som da batida latina, a feder a rum e a diagnosticar: mais um, só mais um, e arrebito