quarta-feira, novembro 29

Clark Quente

Anda por aqui um rapaz, já pelos quarentas, apelidado carinhosamente de Clark Kent. Moreno, alto, de par de lunetas ensebadas, fronha acnada e pateta como o original, o Clark é a figura sobre a qual animo a alma nos dias mais tristonhos. Quando o cenário chuvoso teima inspirar-me melancolia, vou ali ao estaminé do lado, dou duas ou três contempladelas ao Clark e fico logo bem disposto. Se providenciarmos alguns cuidados nos períodos de canícula, para nos esquivarmos à fedentina emanada pela sovaqueira, podemo-nos aproximar com relativa segurança da criatura. São necessários, porém, alguns requisitos prévios. Para evitar prelecções enfadonhas sobre as propriedades dos teclados ergonómicos, é aconselhável simularmos um achaque de surdo-mudez e esgueirarmo-nos de mansinho. Sugere-se também uma distância segura se, eventualmente, o potencial interlocutor carregar com a cruz de ter nascido mulher. A abordagem de salamaleques é inevitável e independente da categoria de fealdade da visada. Este Casanova fará marcação cerrada à portadora de ventre parideiro mais incauta. Aquando em intimidade com os seus botões, o Clark pratica as fracassadas investidas com a fotocopiadora. Ainda há dias lá estava ele, de joelhos flectidos, em pose de inicialmentes ao acasalamento. Inclinado sobre a máquina, mirava com minuncia a sumptuosa prateleira que avia as folhas printadas. Indagava pelos motivos de tanta indiferença aos seus ensejos de reprodução documental, desconhecendo que é aconselhável digitar a tecla clitoriana para que o engenho comece a despachar serviço

2 comentários:

Borboleta disse...

Eu também preciso de uma personagem dessas na minha rua! Mas conta lá, ele sempre descobriu a tecla clitoriana? A boa acção do mês seria explicarlhe a função de tal coisa...

fogacho disse...

eu expliquei, mas temo que o Clark insista na teoria de mito urbano