quinta-feira, agosto 3

Acudam!

Primeiro vão deitar as crianças. Os mais impressionáveis também façam o favor de abandonar a sala. Tudo pronto? Adiante. Ordenavam-se em circulo 26 papelinhos com a respectiva letra do alfabeto. Outros dez com os números de 0 a 9. Entre os algarismos e as letras, mais dois papelinhos, um com SIM e outro com NÃO. Um copo, de preferência dos que os miudos agora usam para se embebedar com shots, um grupo de corajosos e já está. Foi um vício que durou um ou dois anos e que só terminou quando apanhámos um cagaço das antigas. Desde o primeiro contacto que fizémos amizade com uma rapariga. Tenho pena de não me recordar nem do nome nem da história que a levou ao convívio com os espíritos. Só me lembro que eram grandes cowboyadas. Óbvio que a esmagadora maioria das coisas que a miúda prognosticou não se concretizaram. O refúgiado belga era o mais cretino. Chegou a perguntar quando é que ia morrer. O aveirense emocionava-se e passava o tempo a fungar. Eu levava a coisa um bocado na desportiva. Fizemos grandes galhofas os quatro. Passámos um reveillon em minha casa na maior das alarvidades. Era fresca a miúda. Oh se era. Só não publico o conselho que nos deu quando saímos para o que restava daquela noite porque a minha Maria vem cá dar umas espreitadelas amiude. O trágico desfecho ocorreu lá para as bandas da Serra da Estrela. O cenário da casa isolada no meio do nada (literalmente) abriu-nos o apetite. Vai de mais um encontro imediato. A miúda não estava bem. Tinha sido arrastada para o limbo. Solicitava, em pânico, por socorro. Batiam-lhe. Aquilo magoava-a. E dói. Dói. Ajudem-me. Ajudem. Eu transpirava. O cretino do refugiado belga empalidecia. O copo rangia sobre a mesa, para trás e para a frente. Dissemos-lhe, já com os tin-tins mirrados como ervilhas, que íamos em busca de auxílio e acabámos com aquilo. Ainda hoje espero pela factura da jovem do limbo

Deixaram-me uma mensagem no telemóvel já em plena madrugada. O refugiado belga, a banhos no Algarve, recordou-me que a miuda se chamava Solange. R.I.P.

2 comentários:

Woman disse...

Lol, as coisas que eles se lembram...

Beijo

fogacho disse...

woman: buh!!